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Compra de respiradores na pandemia: empresa e ex-secretário de SC são condenados a devolver R$ 33 milhões

G1

Em um desdobramento crucial para um dos casos mais emblemáticos de má-gestão durante a pandemia de Covid-19 em Santa Catarina, a Justiça proferiu uma sentença que condena o ex-secretário da Saúde do estado, Helton Zeferino, juntamente com a empresa Veigamed Material Médico e Hospitalar e seus sócios, além de uma terceirizada, à restituição de <b>R$ 33 milhões</b>. Este montante foi pago antecipadamente pelo governo catarinense por 200 respiradores que, apesar da urgência e da severidade da crise sanitária em 2020, nunca foram entregues conforme o prometido. A decisão judicial não apenas impõe a devolução dos valores, mas também declara a nulidade do processo de compra desses equipamentos, sublinhando as irregularidades que marcaram a transação desde o seu início e que resultaram em um prejuízo significativo para os cofres públicos e, mais gravemente, para a saúde da população. A sentença, ainda sujeita a recurso, reacende o debate sobre a ética na gestão pública em momentos de crise e a necessidade de responsabilização.

A Sentença: Detalhes da Condenação e os Envolvidos

A determinação judicial representa um marco importante na busca por responsabilização no caso dos respiradores que se tornou sinônimo de escândalo em Santa Catarina. A lista de condenados inclui Helton Zeferino, que ocupava o cargo de secretário de Estado da Saúde à época dos fatos e tinha papel decisivo na aprovação da compra. Também foram condenados os sócios-proprietários da Veigamed, a empresa contratada diretamente pelo Estado para a aquisição dos equipamentos essenciais. Adicionalmente, a TS Eletronic do Brasil, uma empresa terceirizada pela Veigamed para intermediar a importação dos aparelhos da China para o Brasil, também foi incluída na condenação. A sentença é de primeira instância e, como é praxe no sistema judicial brasileiro, os réus ainda possuem a prerrogativa de recorrer da decisão em instâncias superiores, um processo que pode prolongar a resolução final do caso por um período considerável. Anteriormente, as tentativas de contato com as defesas do ex-secretário e os representantes da Veigamed não obtiveram retorno, sugerindo que as próximas etapas legais serão intensamente disputadas.

A Responsabilidade Individual na Restituição

A sentença detalha cuidadosamente a forma como a restituição dos valores deverá ocorrer, diferenciando a responsabilidade de cada parte envolvida. Para o ex-secretário Helton Zeferino, a devolução será “na extensão de sua responsabilidade pelo ato administrativo invalidado”. Isso significa que o valor exato que ele deverá restituir não é fixado de imediato, mas será apurado em uma fase posterior, conhecida como liquidação da sentença. Nessa etapa, serão calculados os danos específicos atribuíveis à sua conduta na invalidação do ato de compra. A Veigamed e seus sócios, por sua vez, são solidariamente responsáveis pela maior parte do montante principal de R$ 33 milhões, que deverá ser atualizado com juros e correção monetária desde a data do pagamento. Contudo, a sentença prevê que serão descontados os valores que porventura já tenham sido recuperados ou bloqueados por meio de outras ações judiciais ou administrativas relacionadas a este complexo escândalo. Para assegurar o ressarcimento aos cofres públicos, os bens dos responsáveis pela Veigamed permanecem bloqueados. Já a TS Eletronic, como intermediária no processo de importação, terá sua restituição limitada a eventuais valores que comprovadamente tenha recebido da Veigamed, com o montante exato também a ser apurado em fase subsequente da ação.

O Contexto da Aquisição: Urgência Pandêmica e Irregularidades na Contratação

A compra dos 200 respiradores, avaliada em R$ 33 milhões, foi realizada em abril de 2020, um dos momentos mais críticos e angustiantes da pandemia de Covid-19. Naquela época, o mundo inteiro vivia uma corrida desenfreada por equipamentos médicos essenciais, como os ventiladores pulmonares para Unidades de Terapia Intensiva (UTI), que eram vitais para salvar a vida de pacientes em estado grave. Esse cenário de alta demanda, escassez de oferta e pressão extrema levou governos a adotarem procedimentos emergenciais de aquisição, muitas vezes com dispensa de licitação. Embora a legislação permitisse tal flexibilidade em situações de calamidade pública, a urgência não deveria anular a necessidade de cautela redobrada, transparência e rigor na seleção de fornecedores. O governo de Santa Catarina optou pelo pagamento antecipado integral dos R$ 33 milhões, uma prática que, embora por vezes justificada pela necessidade de garantir a compra com fornecedores em um mercado aquecido, aumenta exponencialmente o risco de fraudes e falhas na entrega, como lamentavelmente se confirmou neste caso, deixando o estado sem os equipamentos prometidos e com um prejuízo milionário. A premissa era equipar as UTIs para salvar vidas, mas a execução da compra mostrou-se desastrosa e ineficaz.

Respiradores Inadequados e a Falha Crítica na Entrega

Apesar do pagamento integral e da extrema necessidade, a realidade das entregas ficou muito aquém do esperado e do contratado. Em maio de 2020, ou seja, um mês após o pagamento total, apenas 50 dos 200 respiradores prometidos chegaram a Santa Catarina. A decepção, contudo, não parou por aí: esses aparelhos, além de serem em número insuficiente, não correspondiam ao modelo especificado no contrato original, levantando sérias questões sobre a conformidade da compra e a lisura da empresa fornecedora. Para agravar a situação, os 50 equipamentos que chegaram foram confiscados pela Receita Federal devido a irregularidades na documentação de importação, impedindo seu uso imediato. Após a liberação, e submetidos a uma rigorosa análise técnica da Secretaria de Estado da Saúde, apenas 11 dos 50 respiradores foram aprovados. O ponto mais crítico e impactante, no entanto, foi a constatação de que nenhum dos aparelhos recebidos podia ser utilizado em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) para pacientes com Covid-19, o objetivo principal e mais urgente da compra. Os poucos equipamentos aprovados foram remanejados para unidades de saúde em outras regiões do estado – Serra, Sul e Oeste catarinense – mas não para a finalidade emergencial inicial, evidenciando o fracasso total da aquisição em atender à demanda crítica imposta pela pandemia.

Desdobramentos Legais e Outras Investigações Paralelas

É fundamental entender que a condenação atual se insere em um contexto jurídico mais amplo e complexo envolvendo a compra dos respiradores. Esta sentença específica se refere a uma ação de natureza civil, focada primordialmente na restituição dos valores pagos indevidamente e na anulação do ato administrativo que gerou a despesa. Contudo, o caso dos respiradores gerou múltiplas frentes de investigação e julgamento em diferentes esferas. Recentemente, em um processo criminal separado, sete pessoas que haviam sido acusadas de organização criminosa ligadas à mesma aquisição foram absolvidas, o que demonstra as nuances e desafios da apuração em diferentes esferas da justiça, onde os critérios de prova e os tipos de ilícitos são distintos. Além disso, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) de Santa Catarina também já havia proferido uma condenação à empresa e a ex-secretários para devolver os R$ 33 milhões, reforçando a visão de irregularidades na operação sob a ótica da fiscalização contábil. A ausência do então governador de Santa Catarina, Carlos Moisés da Silva, nestas ações específicas não o exime de outros escrutínios ou responsabilidades políticas inerentes ao seu cargo na época da compra, que já foi alvo de procedimentos de impeachment e outras análises.

O Impacto Duradouro na Saúde Pública e na Confiança Cidadã

O episódio da compra dos respiradores em Santa Catarina transcende a simples perda financeira de R$ 33 milhões do erário público. Ele representa um golpe severo na capacidade do Estado de proteger seus cidadãos em um momento de crise sem precedentes e um abalo profundo na confiança da população nas instituições públicas. A falta de equipamentos adequados em hospitais durante o pico da pandemia teve consequências diretas e indiretas na saúde e na vida das pessoas, levantando questionamentos éticos e morais sobre a gestão de recursos em momentos de vulnerabilidade extrema. O desfecho desta ação judicial, ainda que passível de recurso, reafirma a importância inegável da fiscalização rigorosa, da transparência absoluta e da responsabilização exemplar de agentes públicos e privados em todas as transações que envolvem recursos públicos, especialmente em contextos de emergência. Casos como este servem como um lembrete contundente dos riscos inerentes a processos de contratação simplificados e da necessidade imperativa de controles internos e externos robustos para salvaguardar o patrimônio público e, acima de tudo, o bem-estar coletivo da população.

Acompanhar de perto os desdobramentos de casos como este é fundamental para a cidadania ativa e para exigir a devida prestação de contas. No Palhoça Mil Grau, estamos comprometidos em trazer a você as notícias mais relevantes e aprofundadas sobre Palhoça, Santa Catarina e os temas que impactam diretamente a nossa comunidade. Para ficar por dentro de todas as atualizações e análises exclusivas, continue navegando em nosso portal e descubra mais conteúdos que fazem a diferença na sua informação e no seu entendimento do cenário local e estadual!

Fonte: https://g1.globo.com

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