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Justiça determina que padrasto de criança torturada e morta em Santa Catarina vá a júri popular; vítima chegou a hospital com marcas de agressão

G1

A Justiça de Santa Catarina deu um passo crucial em um caso que chocou o estado, envolvendo a morte de um menino de quatro anos em Florianópolis. O Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) decidiu que o padrasto da criança, apontado como principal agressor, será submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri. A determinação representa um avanço significativo no processo, prometendo trazer à tona todos os detalhes de uma tragédia marcada por violência e negligência, e reafirma o compromisso do sistema judiciário em apurar crimes de tamanha gravidade.

O caminho para o júri popular: acusações e qualificadoras

O homem é réu por uma série de crimes hediondos, com destaque para o homicídio qualificado. A qualificação se dá por meio cruel e pelo fato de a vítima ser menor de 14 anos, agravantes que indicam a brutalidade e a covardia dos atos. Além disso, ele enfrenta acusações por quatro crimes de tortura, revelando um padrão de agressões que culminou na morte da criança. A denúncia do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) enfatiza que o acusado se valeu de sua posição de proximidade e confiança dentro do núcleo familiar para aumentar a vulnerabilidade do menino, que dependia inteiramente dos cuidados dos adultos.

As qualificadoras rejeitadas e o recurso do MPSC

Inicialmente, o MPSC havia pleiteado a inclusão de outras duas qualificadoras: motivo torpe e uso de recurso que dificultou ou tornou impossível a defesa da vítima. Contudo, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) optou por rejeitar ambas. A corte avaliou que a qualificadora de impossibilidade de defesa já estaria contemplada pela tipificação de homicídio contra menor de 14 anos, que por si só já pressupõe a fragilidade e a incapacidade de reação da criança. Diante dessa decisão, o Ministério Público recorreu, buscando a revisão da análise e a inclusão das qualificadoras que considera pertinentes para o completo enquadramento jurídico dos fatos, demonstrando a complexidade e a rigorosidade do processo legal.

A cronologia dos fatos: da internação à morte do menino

A tragédia veio à tona em 17 de agosto de 2023, quando o menino foi levado ao Multi-hospital de Florianópolis em estado crítico, desacordado e em parada cardiorrespiratória, com marcas evidentes de agressão por todo o corpo. Os ferimentos eram incompatíveis com acidentes domésticos, levantando imediatamente a suspeita de maus-tratos. A criança não resistiu e veio a óbito. Após a morte, o padrasto e a mãe foram detidos. A mulher, posteriormente, foi solta e passou a cumprir medidas cautelares, enquanto o homem teve sua prisão em flagrante convertida em preventiva, permanecendo sob custódia devido à gravidade dos crimes.

A participação da mãe e as medidas cautelares

A mãe da criança também se tornou ré no processo, acusada de homicídio qualificado e tortura por omissão. A investigação aponta que ela tinha conhecimento das agressões e, mesmo assim, não tomou as medidas necessárias para proteger o filho. Embora tenha sido liberada sob medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica e proibição de contato com testemunhas, sua conduta será igualmente analisada pela Justiça. A defesa da mãe contestou a decisão de torná-la ré, mas o TJSC rejeitou o pedido, reforçando que há indícios suficientes para que ela responda pelos crimes imputados.

As evidências da investigação: mensagens e buscas na internet

A investigação policial se aprofundou na vida do casal e descobriu um conjunto de evidências que corroboram as denúncias de tortura. Um relatório detalhado, que embasou o inquérito, revelou trocas de mensagens entre a mãe e o padrasto em diferentes datas. Essas comunicações indicavam claramente que o homem agredia a criança, com o pleno conhecimento e, aparentemente, a complacência da mãe. As mensagens pintam um quadro sombrio de um ambiente familiar onde a violência era uma triste constante.

A polêmica busca no aplicativo de inteligência artificial

Um dos achados mais perturbadores da investigação foi a descoberta, no celular do padrasto, de uma pesquisa feita em um aplicativo de inteligência artificial. A sessão estava ativa no dia da morte do menino, e a pergunta registrada era macabra: 'o que acontece se ficar enforcando muito uma criança'. Essa busca sugere um premeditação ou, no mínimo, uma consciência dos efeitos letais de suas ações, adicionando um elemento chocante de cálculo e frieza ao caso. A revelação dessa pesquisa se tornou um ponto central para a acusação, indicando que o réu buscava informações sobre práticas de estrangulamento, o que agrava a percepção de suas intenções.

Outras pesquisas sobre comportamento autista

Curiosamente, o tribunal também citou outras buscas feitas pelo réu em plataformas de IA, relacionadas a comportamentos de crianças autistas. As perguntas incluíam indagações como 'quando uma criança autista tem medo ou chora perto de tal pessoa, o que significa?' e 'e se a criança ficar variando […] às vezes fica perto da pessoa bem e em outra já não chora ou sente medo?'. Essas pesquisas foram vistas pela defesa como uma tentativa de compreender a situação e melhorar a convivência com a criança, que supostamente teria autismo. No entanto, o contraste entre a busca por entender o autismo e a pergunta sobre enforcamento lança uma luz complexa e contraditória sobre a mente do acusado, dificultando a aceitação de qualquer justificativa para a violência praticada.

O histórico de agressões e as confissões do acusado

O processo detalha um histórico alarmante de agressões. O menino já havia sido internado em outras ocasiões com sinais de maus-tratos, o que levanta questões sobre a atuação das redes de proteção. Em uma das agressões, o padrasto admitiu ter mordido o rosto da criança, alegando estar 'estressado'. Essa confissão inicial, por si só, já aponta para um padrão de violência física e um total descontrole emocional por parte do acusado.

A 'explosão de fúria' e a negativa de intenção de matar

Em uma audiência no início de dezembro, o padrasto confessou ter agredido o menino com socos e tapas. Ele tentou justificar seus atos como um 'ataque de fúria' provocado por problemas pessoais, como dificuldades financeiras e conflitos com a esposa. Apesar de admitir as agressões, o acusado negou veementemente a intenção de matar a criança, chegando a afirmar que a considerava 'um filho'. Segundo seu depoimento, ele estava cuidando do menino enquanto a mãe trabalhava, e a 'fúria' teria surgido ao retornar de uma visita a familiares, culminando na violenta explosão que levou à morte da criança. A contradição entre a confissão de violência e a negação de dolo é um ponto crucial que será debatido no júri.

O papel do Conselho Tutelar e a apuração de conduta

A gravidade do caso também levou à abertura de uma sindicância para apurar a conduta do Conselho Tutelar de Florianópolis. A investigação busca verificar se houve falhas na atuação do órgão, que tem como missão zelar pelos direitos de crianças e adolescentes. A existência de internações prévias com sinais de maus-tratos levanta a possibilidade de que o sistema de proteção à infância não tenha agido de forma eficaz para prevenir a tragédia final, destacando a necessidade de revisão de protocolos e de uma atuação mais vigilante por parte das instituições responsáveis.

O que significa o júri popular para o caso Moisés

A decisão de levar o padrasto a júri popular é de extrema importância. No Tribunal do Júri, cidadãos comuns, escolhidos por sorteio, têm a responsabilidade de julgar os crimes dolosos contra a vida. Isso significa que a sociedade, por meio de seus representantes, terá o poder de decidir sobre a culpa ou inocência do acusado e, em caso de condenação, a qualificação do crime. Este é um rito processual que busca garantir a justiça com a participação direta da comunidade, conferindo uma dimensão ainda maior à busca por reparação em casos de grande comoção social. Embora a data para a sessão ainda não tenha sido definida, a etapa do júri popular marca um ponto de virada decisivo para o desfecho deste caso tão doloroso.

O caso do menino Moisés, como ficou conhecido, continua a ser acompanhado de perto pela comunidade de Palhoça e por todo o estado de Santa Catarina. A seriedade das acusações e a brutalidade dos fatos exigem uma apuração rigorosa e uma resposta exemplar da Justiça. Para continuar por dentro de todos os desdobramentos deste e de outros casos que impactam nossa região, mantenha-se conectado ao Palhoça Mil Grau. Aqui, você encontra jornalismo aprofundado, análises e informações atualizadas sobre os temas que realmente importam para a nossa comunidade. Não perca nenhuma atualização e venha fazer parte da nossa rede de informação e engajamento!

Fonte: https://g1.globo.com

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