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Doações de videolocadora em Santa Catarina com 10 mil DVDs mobilizam cinéfilos de vários estados: ‘mídia física traz senso de urgência’

G1

Em um cenário onde as plataformas de streaming dominam o entretenimento doméstico, a notícia de uma doação massiva de cerca de <b>10 mil DVDs</b> em <b>Xanxerê</b>, no <b>Oeste catarinense</b>, reacendeu a paixão pela mídia física e mobilizou cinéfilos de diversas partes do <b>Brasil</b>. O acervo pertence à antiga <b>Mania Vídeo</b>, uma das maiores videolocadoras que já existiram em <b>Santa Catarina</b>, e a iniciativa de seu proprietário, <b>Fábio Moschetta</b>, transformou o desapego em um evento cultural de proporções nacionais. Mais de uma década após o encerramento das atividades da locadora, essa coleção monumental, que representa 34 anos de história e dedicação, busca novos lares, atraindo interessados desde o <b>Rio Grande do Sul</b> até <b>São Paulo</b>, todos em busca da experiência única que apenas o DVD pode oferecer.

Mania Vídeo: um legado de mais de três décadas na cultura local

A história da <b>Mania Vídeo</b> é um testemunho da evolução do consumo de entretenimento no <b>Brasil</b>. Fundada em 1982 pelo pai de <b>Fábio Moschetta</b>, a locadora começou em uma modesta sala de apenas 10 metros quadrados. Ao longo dos anos, com a crescente demanda por filmes em VHS e, posteriormente, em DVD, o negócio prosperou e expandiu-se significativamente, culminando em uma estrutura impressionante de 368 metros quadrados em sua última sede em <b>Xanxerê</b>. Não se limitando à cidade natal, a <b>Mania Vídeo</b> chegou a ter filiais em municípios vizinhos no <b>Oeste catarinense</b>, consolidando-se como um verdadeiro polo cultural e social para a região. Longe de ser apenas um local para alugar filmes, a videolocadora era um ponto de encontro, um espaço onde a comunidade se reunia para descobrir novas histórias, trocar ideias e vivenciar o cinema de forma coletiva.

O crepúsculo das videolocadoras: além do streaming

O fechamento da <b>Mania Vídeo</b> em 2016 reflete um fenômeno global que marcou o declínio das videolocadoras em todo o mundo, com exemplos notórios como a <b>Blockbuster</b>. Contudo, <b>Fábio Moschetta</b> ressalta que o avanço do streaming, embora tenha sido um fator significativo, não foi o único algoz. Ele aponta para outros elementos que, na época, já disputavam a atenção do público: a <b>pirataria</b>, que oferecia conteúdo de forma ilegal e gratuita; e o surgimento das <b>redes sociais</b> e dos <b>jogos de celular</b>, que passaram a consumir grande parte do tempo de lazer das pessoas. Esses concorrentes, muitas vezes subestimados, diluíram o foco dos consumidores e diminuíram a relevância da experiência de alugar um filme, pavimentando o caminho para a ascensão do consumo digital on-demand.

A decisão de encerrar as operações foi um reconhecimento de uma mudança irreversível no comportamento do consumidor, onde a conveniência e a instantaneidade começavam a superar a experiência física de ir a uma locadora. O acervo de DVDs, testemunha silenciosa dessa transição, permaneceu guardado por anos em um galpão da empresa de construção de <b>Moschetta</b>, aguardando um novo propósito.

O desapego pessoal e a preservação de um legado familiar

A iniciativa de doar o gigantesco acervo de DVDs nasceu de uma profunda reflexão pessoal. Após a perda de um familiar, <b>Fábio Moschetta</b> sentiu a necessidade de 'desapegar', um processo que muitos experimentam como uma forma de reorganizar a vida e honrar memórias. No entanto, o desapego não foi total. Com um carinho especial pelos filmes, ele decidiu separar entre 2 mil e 2,5 mil títulos para si. A seleção não é aleatória; <b>Moschetta</b> planeja escolher os 'melhores filmes', aqueles que ele acredita que 'mais vão formar o caráter' de suas filhas. Essa escolha cuidadosa transforma a doação não apenas em um ato de generosidade, mas também em um legado afetivo, transmitindo valores e a paixão pelo cinema para a próxima geração, enquanto o restante do acervo segue para enriquecer a vida de outros entusiastas.

A mídia física no século XXI: senso de urgência e o poder do compartilhamento

Em meio à vasta oferta de filmes e séries disponíveis a qualquer momento nos serviços de streaming, a argumentação de <b>Fábio Moschetta</b> em favor da mídia física ressoa com muitos cinéfilos. Ele destaca o <b>'senso de urgência'</b> que o DVD proporciona: 'Você locava o filme, tinha que assistir àquele filme, não tinha outra opção. Você ia assistir sendo o início bom ou não'. Essa 'compulsão' contrasta bruscamente com a 'paralisia da escolha' que afeta os usuários de plataformas digitais, onde a infinidade de opções pode levar à dificuldade de decidir o que assistir e, consequentemente, à desistência fácil diante dos primeiros minutos de um filme. Com um DVD, o investimento de tempo e, antigamente, de dinheiro, criava um compromisso com a obra.

O valor da conexão humana através do cinema

Além da urgência, <b>Moschetta</b> enfatiza o aspecto social e de <b>compartilhamento</b> como uma vantagem inerente aos DVDs e VHSs. 'É aquela dedicação, uma coisa que realmente é tua. Tu podes emprestar para um amigo'. Essa troca física de filmes fomenta a conversa, a recomendação pessoal e fortalece laços sociais, algo que se perde na experiência individualizada do streaming. A ida à videolocadora, outrora um 'evento' em si, era um rito social, um espaço para a interação humana em torno da paixão pelo cinema. Essa dimensão comunitária é o que muitos entusiastas da mídia física sentem falta e buscam preservar.

A propriedade de um DVD também oferece uma sensação de permanência e colecionismo, garantindo o acesso a um título mesmo que ele seja removido de um catálogo de streaming. Para colecionadores e puristas, a qualidade de áudio e vídeo em discos físicos muitas vezes supera a das versões comprimidas digitalmente, assegurando uma experiência cinematográfica mais autêntica.

A mobilização nacional dos cinéfilos: um apelo irresistível

O anúncio da doação nas redes sociais provocou uma onda de entusiasmo que se espalhou por vários estados. <b>Fábio Moschetta</b> relata ter recebido mensagens de interessados de toda a região <b>Oeste catarinense</b>, de outras partes de <b>Santa Catarina</b>, do <b>Rio Grande do Sul</b> — com confirmações de viagem de pessoas de <b>Caxias do Sul</b> —, do litoral catarinense, de <b>Curitiba</b> e até mesmo de <b>São Paulo</b>. Essa repercussão demonstra o quão vivo ainda é o interesse pela mídia física e o forte senso de comunidade entre os cinéfilos que valorizam o formato. As doações estão agendadas para os dias <b>30 e 31 de maio</b>, das 13h às 18h, no mesmo endereço onde a <b>Mania Vídeo</b> funcionava: <b>Avenida La Salle, 229, segundo andar, em Xanxerê</b>. É uma oportunidade imperdível para resgatar verdadeiros tesouros cinematográficos.

As joias da coleção de Fábio Moschetta

Como um verdadeiro especialista em filmes, <b>Fábio Moschetta</b> também compartilha suas escolhas favoritas do vasto acervo que um dia pertenceu à <b>Mania Vídeo</b>. Entre os seus eleitos, destacam-se '<b>Os Miseráveis</b>' de 1998, uma adaptação com o renomado ator <b>Liam Neeson</b>, e o aclamado drama iraniano '<b>Filhos do Paraíso</b>', dirigido por <b>Majid Majidi</b> e indicado ao <b>Oscar</b> de Melhor Filme Estrangeiro. Essas escolhas revelam um gosto apurado, que transita entre grandes produções hollywoodianas e obras sensíveis do cinema mundial, refletindo a diversidade e a riqueza cultural que o acervo da locadora sempre ofereceu.

A doação dos DVDs da <b>Mania Vídeo</b> transcende a mera transferência de objetos; ela representa a passagem de um legado cultural, a reafirmação do valor da mídia física e a eterna paixão pelo cinema que continua a unir pessoas através das gerações. É um lembrete de que, mesmo na era digital, a tangibilidade de um objeto e a experiência compartilhada podem ter um significado imenso.

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Fonte: https://g1.globo.com

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