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‘Caçadores de frio’: o fenômeno que impulsiona o turismo e a economia nas cidades da Serra de Santa Catarina

G1

A busca incessante por paisagens invernais e a vivência de temperaturas gélidas transformaram a Serra Catarinense em um dos destinos mais cobiçados do Brasil durante a estação fria. Milhares de turistas, apelidados carinhosamente de 'caçadores de frio', embarcam anualmente em viagens rumo a cidades como São Joaquim, Urubici, Urupema e Bom Jardim da Serra. Este movimento não se resume apenas à apreciação de geada ou à rara possibilidade de neve; ele representa um robusto turismo de expectativa que injeta vitalidade na economia local, gerando empregos e valorizando a cultura regional, para além dos renomados vinhos de altitude e da gastronomia serrana.

A busca pelo sonho branco: histórias de 'Caçadores de Frio'

A família de Maria Gabriela de Lucca Oliveira e Francisco Carlos Machado de Oliveira, de São José do Rio Preto, São Paulo, exemplifica perfeitamente a motivação desses viajantes. Chegaram a São Joaquim em um grupo de cinco pessoas, movidos por um sonho antigo de presenciar a neve e experimentar o clima acolhedor da região. Maria Gabriela expressa a expectativa comum: “Com certeza, a gente veio porque a gente sempre ouviu falar sobre São Joaquim, né? Que aqui neva e que o pessoal é muito acolhedor. Então, nós viemos para ver se é tudo isso mesmo”. Essa busca por uma experiência que transcende o cotidiano é o motor de um segmento turístico em plena ascensão.

Outro caso notório é o de Mariene Simas e Lucian Galiotto, que partiram de Joinville. No fim de junho, eles tiveram a sorte de amanhecer em São Joaquim com os termômetros marcando uma impressionante mínima de -8°C, e os campos cobertos por uma densa camada de geada. Embora a neve não tenha se manifestado em flocos, a paisagem congelada e o frio intenso já configuraram uma experiência memorável. Lucian relata: “Vai ser um bate e volta. A gente veio para conhecer algumas cidades, paisagens, e algumas a gente já conhecia. Estamos gostando e sentindo o frio”. Essas viagens de curta duração são comuns, mas intensas em termos de sensações e descobertas.

Elias Leopoldino Basto, um empresário de 51 anos vindo do Guarujá, São Paulo, representa uma faceta mais aventureira desse turismo. Ao tomar conhecimento das quedas bruscas de temperatura, Elias decidiu explorar a Serra Catarinense de motorhome com sua família. A mobilidade proporcionada pelo veículo permitiu-lhe adaptar o roteiro conforme a previsão do tempo, 'caçando' as menores temperaturas e os cenários mais gelados. Ele comenta sobre a flexibilidade: “Tem sua vantagem, porque é só ver a previsão do tempo e pegar a estrada”. Apesar dos desafios logísticos, como o espaço restrito e a necessidade de planejamento para pernoites, a experiência é valorizada pela liberdade de perseguir o frio onde quer que ele apareça.

Por que a Serra Catarinense é o epicentro do frio no Brasil?

A Serra Catarinense, com altitudes que variam entre 900 e 1,5 mil metros, é inquestionavelmente a região mais fria do país. Essa característica se deve a uma combinação de fatores geográficos e climáticos. A elevada altitude permite que as massas de ar polar, frequentemente originárias do sul do continente, encontrem condições ideais para resfriamento. Quando estas massas de ar frio interagem com a umidade e a topografia, a ocorrência de geada é um fenômeno quase diário em algumas áreas durante o inverno. A neve, embora mais rara e imprevisível, é o grande atrativo, e sua possibilidade mantém os turistas em constante expectativa. Nos registros da época, em 2025, a região testemunhou três episódios de neve, enquanto em 2026, Bom Jardim da Serra ganhou destaque nacional ao registrar os primeiros flocos do ano.

É fundamental diferenciar a geada da neve para o turista leigo. A geada ocorre quando o vapor d'água no ar se congela diretamente sobre as superfícies (plantas, carros, telhados) em forma de cristais de gelo, geralmente sem precipitação. Já a neve é a precipitação de cristais de gelo que se formam nas nuvens e caem ao solo. Ambos os fenômenos, contudo, transformam a paisagem, criando cenários brancos e gelados que fascinam os visitantes e alimentam o imaginário do inverno europeu em solo brasileiro.

Os tesouros gelados da Serra: cidades e seus encantos de inverno

São Joaquim: a capital da maçã e do frio intenso

Localizada a 1,3 mil metros de altitude, São Joaquim é um dos destinos mais emblemáticos para quem busca o frio. Famosa não apenas pela produção de maçãs de alta qualidade, mas também por seus registros de temperaturas extremamente baixas, a cidade oferece cenários deslumbrantes. O Vale Caminhos da Neve, por exemplo, é um dos pontos mais procurados, onde a geada se forma com intensidade, cobrindo campos e vegetação. A Praça João Ribeiro, no centro da cidade, também costuma amanhecer coberta por uma camada branca de gelo, tornando-a um cartão postal instagramável.

Além da 'caçada' ao frio, São Joaquim se destaca pela cultura do vinho de altitude. As vinícolas locais oferecem degustações e tours, proporcionando uma experiência completa que combina o prazer de um bom vinho com a paisagem gelada. A gastronomia típica da serra, com seus pratos quentes e aconchegantes, complementa a estadia, garantindo conforto e sabor aos visitantes que buscam se aquecer após um dia de exploração.

Urupema: a Capital Nacional do Frio no topo da serra

Urupema, com 1,4 mil metros de altitude, é oficialmente reconhecida como a Capital Nacional do Frio. Sua localização privilegiada a torna um palco para fenômenos invernais de tirar o fôlego. O Morro das Antenas é um dos pontos mais altos e procurados, oferecendo vistas panorâmicas espetaculares da região, muitas vezes cobertas por geada. O Vale das Pedras Brancas é outro atrativo, onde cascatas e a vegetação ficam congeladas, criando uma paisagem de rara beleza que encanta fotógrafos e amantes da natureza.

A cidade investe no ecoturismo de inverno, com trilhas e mirantes que permitem ao visitante explorar a natureza exuberante em seu estado mais gelado. O turismo em Urupema é voltado para quem busca uma imersão completa no ambiente serrano, com um foco especial na tranquilidade e na apreciação das belezas naturais intensificadas pelo frio.

Urubici: acolhimento em meio a paisagens deslumbrantes

Com uma altitude média de 915 metros, Urubici é uma das cidades mais visitadas e aclamadas na Serra Catarinense, frequentemente citada como a mais acolhedora do país. Suas paisagens são um convite à exploração, mesmo sob baixas temperaturas. Localidades como Vacas Gordas e o icônico Morro da Igreja, que abriga a famosa Pedra Furada, são palco de fortes episódios de geada e neblina, criando uma atmosfera mística e convidativa. A infraestrutura turística da cidade é bem desenvolvida, oferecendo diversas opções de hospedagem e atividades que agradam a diferentes perfis de viajantes.

Urubici é um destino que combina aventura e relaxamento. Além da busca pelo frio, os visitantes podem desfrutar de cachoeiras congeladas, mirantes deslumbrantes e a hospitalidade calorosa dos moradores. O ecoturismo é uma força motriz aqui, com opções para trekking, rapel e outras atividades ao ar livre, permitindo que os 'caçadores de frio' explorem a natureza de forma ativa.

Bom Jardim da Serra: a porta de entrada para a Serra do Rio do Rastro

A 1,2 mil metros de altitude, Bom Jardim da Serra se destaca não apenas pela proximidade com a espetacular Serra do Rio do Rastro, mas também por seus próprios registros de frio intenso. Em 2026, a cidade foi o cenário da primeira neve do ano na região, com temperaturas que chegaram a -9,2ºC. O Terra do Gelo e o Mirante da Serra do Rio do Rastro são os pontos mais procurados pelos turistas que buscam as temperaturas mais baixas e as vistas mais impressionantes, especialmente quando as nuvens se dissipam e revelam a grandiosidade da paisagem.

A cidade serve como um portal para a icônica Serra do Rio do Rastro, com suas curvas sinuosas e paisagens que parecem de outro mundo. O inverno em Bom Jardim da Serra oferece uma experiência única para quem busca a combinação de aventura e contemplação, com a possibilidade de observar não apenas a geada e a neve, mas também as formações rochosas e a neblina que conferem um ar dramático à região.

O perfil do turista que abraça o inverno serrano

A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Santa Catarina (Fecomércio-SC) realizou uma pesquisa detalhada, 'Inverno na Serra Catarinense', em 2025, revelando o perfil dos 'caçadores de frio'. Os dados indicam que a maioria (52,4%) prefere hospedar-se em hotéis e similares, enquanto cerca de 24,3% opta por imóveis alugados, buscando uma experiência mais privativa ou em grupo. A predominância do transporte terrestre é notável, com 86,1% dos visitantes utilizando carro próprio, o que sugere a importância da autonomia na exploração da região. Surpreendentemente, 27,9% viajam em excursões, contrariando a percepção de que esses seriam destinos majoritariamente românticos, já que apenas 2% das viagens são feitas por casais. A permanência média varia entre 2 e 5 dias, indicando que os turistas buscam uma imersão compacta, mas intensa, nas belezas e no clima da serra.

Esses dados mostram um turista proativo e curioso, que valoriza a flexibilidade para explorar. A motivação vai além de 'ver a neve'; é a busca por uma experiência completa que envolve a paisagem, a cultura local, a gastronomia e, claro, a sensação do frio. O perfil sugere que o marketing da região pode ser direcionado não apenas a casais, mas também a grupos de amigos e famílias que buscam aventura e momentos únicos em um cenário invernal autêntico, reforçando a ideia de que a Serra Catarinense é um destino para todos os que apreciam o inverno em suas diversas manifestações.

Impacto econômico e o desafio da sustentabilidade

O fenômeno dos 'caçadores de frio' não é apenas uma curiosidade turística; ele representa um motor econômico vital para as cidades serranas. Hotéis, pousadas, restaurantes, vinícolas, lojas de artesanato e agências de turismo prosperam durante a temporada de inverno, gerando empregos diretos e indiretos e impulsionando a economia local. A sazonalidade é intensa, e a expectativa do frio é um fator crucial para o planejamento e investimento dos empresários da região. Este fluxo de visitantes ajuda a manter viva a cultura local e a valorizar os produtos regionais.

No entanto, o aumento do turismo traz consigo desafios. A infraestrutura das cidades precisa ser constantemente aprimorada para suportar a demanda, e a gestão dos recursos naturais exige atenção redobrada. O turismo consciente e sustentável é fundamental para preservar as belezas que atraem tantos visitantes. Educar os turistas sobre a importância da conservação ambiental e apoiar iniciativas locais de sustentabilidade são passos cruciais para garantir que a Serra Catarinense continue sendo um destino de inverno deslumbrante e acolhedor por muitas gerações.

A Serra Catarinense é, sem dúvida, um tesouro brasileiro que oferece uma experiência invernal singular. Seja para presenciar a mágica da geada, a emoção da neve ou simplesmente para desfrutar da culinária e dos vinhos de altitude em um clima ameno, a região aguarda os 'caçadores de frio' com braços abertos. Não perca a oportunidade de explorar outros conteúdos exclusivos e aprofundados sobre a nossa querida Palhoça e região. Continue navegando no Palhoça Mil Grau e descubra mais histórias e informações que só o nosso portal traz para você!

Fonte: https://g1.globo.com

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