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Como a queda da quarta maior araucária do Brasil pode facilitar a preservação das gigantes da espécie

G1

A natureza, em sua essência cíclica, frequentemente apresenta paradoxos onde o fim de um ciclo pode significar o início de uma nova oportunidade. Em Santa Catarina, a queda da 'Pinheirão', a quarta maior araucária documentada no Brasil, exemplifica perfeitamente essa máxima. Com seus impressionantes 44 metros de altura, esta gigante, localizada na Estação Experimental da Embrapa em Caçador, no Meio-Oeste catarinense, não representa uma perda total, mas sim uma janela de pesquisa inédita. O evento, que pesquisadores estimam ter ocorrido nas últimas semanas após seu último registro em pé em novembro de 2023, transformou um desafio intransponível em uma rara chance para a ciência, especialmente para a preservação e clonagem da espécie.

O Gigante de Caçador: Contexto e Desafios da Preservação

A araucária (Araucaria angustifolia), popularmente conhecida como pinheiro-do-paraná, é um símbolo do Sul do Brasil, fundamental para o ecossistema e a cultura regional. Suas florestas, que outrora cobriam vastas áreas, hoje são fragmentos ameaçados, tornando a preservação de exemplares gigantes como o 'Pinheirão' de Caçador uma prioridade crítica. Com uma altura média de 25 a 30 metros para a espécie, um exemplar de 44 metros é uma anomalia genética e ecológica, potencialmente portador de características de resistência e longevidade valiosíssimas.

Antes da queda, a magnitude da árvore era, ironicamente, seu maior obstáculo para a pesquisa. A coleta de material genético, essencial para estudos de idade e clonagem, era praticamente inviável. As brotações mais jovens e viáveis para estudo ficavam na copa, a uma altura vertiginosa. A escalada, método comum para árvores de menor porte, era um risco inaceitável devido ao tronco oco do 'Pinheirão', uma condição que o tornava intrinsecamente frágil e sujeito a um tombamento iminente. Essa peculiaridade do tronco também impedia métodos precisos de datação da árvore em pé, limitando o conhecimento sobre sua história.

A Queda como Oportunidade Científica Inédita

Apesar da melancolia que envolve a queda de uma árvore tão monumental, para a comunidade científica, o evento se desdobrou em uma oportunidade sem precedentes. Como detalha Paulo César, bolsista da equipe de pesquisa composta pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Santa Catarina), a inacessibilidade do material genético em vida da árvore era o grande entrave. 'Esse material se encontra no alto, na copa da árvore e, em virtude de sua altura, o procedimento só seria possível por meio de escalada, o que era inviável nesta árvore, ou, infelizmente, com seu tombamento', explicou César, sublinhando a dualidade da situação.

Coleta e Tentativa de Clonagem: Resgatando um Legado Genético

Com a árvore ao alcance, a equipe de pesquisadores agiu com celeridade. O período ideal para a coleta de material genético viável para clonagem é crítico: geralmente, de cinco a dez dias após a queda. Contudo, mesmo fora desse intervalo ótimo, os especialistas da Embrapa Florestas, liderados pelo pesquisador Ivar Wendling, identificaram brotações ainda em condições de serem resgatadas. Este material foi cuidadosamente coletado e imediatamente transportado para laboratório, onde foi submetido a um processo de enxertia, técnica que busca clonar a araucária-mãe. A expectativa é que em cerca de 100 dias, os pesquisadores saibam se a tentativa de clonagem foi bem-sucedida, o que representaria um avanço significativo na conservação da espécie.

Desvendando a Idade e a História do 'Pinheirão'

Além da clonagem, a queda do 'Pinheirão' abriu caminho para a determinação precisa de sua idade, um enigma que o tronco oco mantinha em segredo por séculos. A pesquisadora Maria Augusta Doetzer Rosot havia anteriormente ressaltado que, devido à fragilidade do tronco, nenhuma investigação para determinar a idade da árvore em pé havia sido realizada. Agora, com a árvore no chão, discos do tronco serão coletados de uma seção que permanece íntegra, a aproximadamente 5 metros acima da base. A análise desses discos permitirá aos dendrocronologistas contar os anéis de crescimento, revelando a verdadeira idade da araucária. Essa informação é vital para entender o ritmo de crescimento da espécie em condições ideais e sua resiliência a eventos climáticos e ambientais ao longo do tempo, potencialmente oferecendo dados sobre séculos de história climática da região.

Implicações Amplas para a Conservação das Araucárias

O estudo do 'Pinheirão' transcende o exemplar individual. Santa Catarina, um dos 'berçários' da espécie, abriga outras araucárias gigantes, como uma impressionante árvore de 42 metros em São Joaquim, na Serra, que pode ter entre 600 e 900 anos. As lições aprendidas com a araucária de Caçador – desde as técnicas de coleta de material genético até a compreensão de sua biologia e longevidade – são cruciais para a formulação de estratégias mais eficazes de conservação para essas outras gigantes e para a espécie como um todo. A clonagem bem-sucedida poderia permitir a reintrodução de material genético valioso em áreas protegidas, aumentando a diversidade genética e a resiliência das populações de araucárias.

A colaboração entre instituições como Embrapa e Epagri é fundamental neste processo. Ao compartilhar recursos, conhecimentos e expertise, eles não apenas maximizam as chances de sucesso da pesquisa, mas também fortalecem a rede de conservação ambiental no Brasil. A história do 'Pinheirão' serve como um lembrete vívido da fragilidade e da resiliência da natureza, e da importância do investimento contínuo em pesquisa e conservação para proteger nosso patrimônio biológico.

A queda do 'Pinheirão' não é o fim, mas um capítulo transformador na saga da conservação das araucárias. É a prova de que, mesmo diante da perda, a ciência pode encontrar caminhos para preservar a essência da vida. Para continuar acompanhando as descobertas sobre o 'Pinheirão' e outras notícias que moldam o cenário ambiental e social de Palhoça e região, mantenha-se conectado ao Palhoça Mil Grau. Sua fonte completa de informação e análise aprofundada está sempre aqui para você!

Fonte: https://g1.globo.com

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