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Ameaçado de extinção: Santa Catarina registra mais de 40 mortes do menor golfinho do Brasil em 2026

G1

O litoral de Santa Catarina, um ecossistema marinho de beleza ímpar e rica biodiversidade, tem sido palco de um alarmante e preocupante fenômeno: a morte em massa de toninhas. Entre janeiro e 15 de agosto de 2026, <b>um total de 43 toninhas, o menor golfinho do Brasil, foram encontradas mortas no Litoral Norte do estado</b>. Este número não apenas representa uma tragédia ambiental, mas também acende um alerta vermelho para a sobrevivência de uma espécie já classificada como “criticamente em perigo de extinção” pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A situação exige uma análise aprofundada das causas e um olhar atento sobre as urgentes medidas de conservação necessárias para proteger este delicado mamífero marinho.

Ameaça Constante no Litoral Catarinense: Detalhes dos Encalhes

A estatística divulgada pela Unidade de Estabilização de Animais Marinhos da Univali, instituição executora do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS), é um retrato sombrio da pressão que a toninha (<i>Pontoporia blainvillei</i>) enfrenta. Das 44 ocorrências de encalhe registradas neste período, apenas um único animal foi resgatado com vida, evidenciando a letalidade das circunstâncias que levam estes golfinhos à costa. Este dado contrasta desfavoravelmente com o ano anterior, quando, no mesmo período de 2025, foram contabilizados 38 encalhes. Ao longo de todo o ano de 2025, o litoral catarinense registrou 95 toninhas mortas, uma tendência que, se mantida, indica um agravamento da situação em 2026.

O PMP-BS é uma iniciativa vital para a compreensão e mitigação de impactos sobre a fauna marinha. Atuando em uma vasta área costeira, seu trabalho de monitoramento diário e coleta de dados é fundamental para identificar padrões, causas e propor soluções. A Unidade da Univali, localizada em Penha, Santa Catarina, desempenha um papel crucial ao receber os animais encalhados para necropsia e análises, fornecendo informações científicas indispensáveis para as políticas de conservação.

Focos de Preocupação: As Cidades Mais Afetadas

Os encalhes de toninhas se concentram em sete municípios do Litoral Norte catarinense, abrangendo o trecho entre Barra Velha e Governador Celso Ramos, na Grande Florianópolis. Esta região é caracterizada por intensa atividade pesqueira, desenvolvimento urbano costeiro e movimentação de embarcações, o que inevitavelmente aumenta a interação, muitas vezes fatal, entre seres humanos e a vida marinha. Os registros por cidade em 2026 destacam áreas críticas:

<ul><li>Penha: 14 casos</li><li>Barra Velha: 11 casos</li><li>Navegantes: 11 casos</li><li>Balneário Piçarras: 5 casos</li><li>Balneário Camboriú: 1 caso</li><li>Bombinhas: 1 caso</li><li>Itajaí: 1 caso</li></ul>

A predominância de casos em Penha, Barra Velha e Navegantes sugere que estas áreas podem apresentar uma confluência de fatores de risco, como a presença de colônias pesqueiras com redes de emalhe e um habitat natural que atrai as toninhas para a alimentação e reprodução, intensificando as chances de encontros fatais.

A Tragédia da Reprodução: Fêmeas Gestantes Entre as Vítimas

Um dos aspectos mais dolorosos e preocupantes dos registros de 2026 é a descoberta de fêmeas adultas gestantes entre os animais mortos. No início de agosto, em praias de Barra Velha, duas toninhas com fetos foram encontradas. A primeira, no dia 4 de agosto, na Praia do Tabuleiro, pesava 25 quilos e, apesar do avançado estado de decomposição, exames técnicos revelaram uma fratura e uma marca linear no rostro, sinais que frequentemente indicam emalhe acidental em redes de pesca. O feto que ela carregava também foi documentado, representando uma dupla perda para a população já minguada.

Apenas dois dias depois, em 6 de agosto, na Praia do Grant, também em Barra Velha, outra fêmea gestante, com 27,5 quilos, foi encontrada morta. Ambos os corpos foram encaminhados à Unidade da Univali para necropsia e coleta de amostras biológicas. Embora o estado de decomposição possa dificultar a confirmação definitiva da causa da morte, a análise técnica do PMP-BS é clara: <b>fêmeas gestantes em bom estado nutricional geralmente sucumbem a eventos agudos</b>, como o afogamento resultante de um encalhe acidental após ficarem presas em equipamentos de pesca. A perda de fêmeas reprodutoras, especialmente aquelas que carregam filhotes, é um golpe devastador para uma espécie com taxa reprodutiva naturalmente lenta, comprometendo ainda mais sua capacidade de recuperação.

A Toninha: Um Tesouro Frágil da Biodiversidade Brasileira

A toninha, ou golfinho-nariz-de-garrafa, é um cetáceo costeiro endêmico da América do Sul, encontrada desde o Espírito Santo, no Brasil, até a Argentina. É notável por ser o menor golfinho de água salgada da costa brasileira, medindo cerca de 1,5 metro de comprimento e pesando até 50 quilos. Sua coloração é tipicamente marrom-acinzentada e ela possui um rostro (focinho) relativamente longo e fino, que lhe confere um aspecto único. Habita águas rasas e turvas, geralmente próximas à costa, onde se alimenta de peixes e cefalópodes. Essa preferência por águas costeiras é, ironicamente, o que a torna tão vulnerável às atividades humanas.

Desde 2014, a toninha figura na lista oficial das espécies da fauna brasileira ameaçada de extinção como “criticamente em perigo”, o grau mais elevado de ameaça antes da extinção na natureza, de acordo com as categorias da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). O ICMBio, órgão federal responsável pela pesquisa, proteção e manejo da biodiversidade brasileira, tem a toninha como uma de suas maiores preocupações em termos de conservação marinha.

Sua biologia reprodutiva também contribui para sua vulnerabilidade. As toninhas possuem um longo período de gestação, de aproximadamente 11 meses, e dão à luz apenas um filhote a cada dois ou três anos. O pico de nascimentos ocorre durante a primavera, período que coincide, infelizmente, com um aumento nos encalhes, possivelmente devido à maior presença de fêmeas e filhotes em águas costeiras mais movimentadas, onde são mais suscetíveis a ameaças.

As Múltiplas Faces da Ameaça: Pesca, Poluição e Degradação de Habitat

A toninha é uma espécie sentinela, ou seja, sua saúde reflete diretamente a saúde do ecossistema costeiro. As principais ameaças à sua sobrevivência são multifacetadas e interconectadas, resultando de atividades humanas diretas e indiretas.

A Pesca Artesanal e o Emalhe Acidental

A captura acidental em redes de emalhe, também conhecida como pesca incidental ou bycatch, é considerada a principal ameaça à toninha. Essas redes, frequentemente utilizadas por pescadores artesanais que dependem delas para seu sustento, são quase invisíveis na água e representam uma armadilha mortal para os golfinhos, que não conseguem detectá-las a tempo. Ao ficarem presas, as toninhas, que precisam subir à superfície para respirar, acabam se afogando. A sobreposição entre as áreas de pesca e os habitats das toninhas, que buscam alimento em águas mais rasas, intensifica esse risco. A busca por soluções para este problema é complexa, envolvendo a pesquisa de artes de pesca mais seletivas, o uso de dispositivos acústicos de mitigação (pingers) e programas de compensação ou incentivo para que pescadores adotem práticas mais sustentáveis.

Poluição e Degradação do Habitat Costeiro

A poluição marinha representa outra grave ameaça. O descarte inadequado de plásticos, microplásticos, esgoto doméstico e efluentes industriais contendo metais pesados e produtos químicos tóxicos contamina o ambiente marinho. As toninhas, no topo da cadeia alimentar em seu habitat, podem acumular essas toxinas em seus tecidos, o que pode levar a problemas reprodutivos, imunológicos e neurológicos, enfraquecendo-as e tornando-as mais vulneráveis a doenças e outras ameaças. Além disso, a degradação e a perda de seu habitat natural devido à expansão urbana, portuária, projetos de dragagem e atividades de turismo predatório reduzem o espaço disponível para a espécie, fragmentam suas populações e diminuem a disponibilidade de alimentos, estressando ainda mais esses animais e empurrando-os para áreas de maior risco.

O Papel da Ciência na Conservação: O Trabalho do PMP-BS/Univali

O Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS), em sua essência, representa a linha de frente da batalha pela conservação marinha. Através da coleta meticulosa de dados biométricos, da realização de exames detalhados e das necropsias, os pesquisadores e técnicos da Univali estão expandindo significativamente o conhecimento científico sobre a população local de toninhas. Cada encalhe, cada exame post-mortem, fornece pistas vitais sobre a saúde da espécie, as causas de mortalidade, a dinâmica populacional e os impactos específicos das atividades humanas. Este vasto banco de dados é crucial não apenas para entender o problema, mas também para desenvolver e refinar estratégias de mitigação eficazes. As informações coletadas servem de subsídio para agências governamentais, organizações não governamentais e comunidades locais, orientando a implementação de políticas públicas, a criação de áreas de proteção e o desenvolvimento de campanhas de conscientização.

É um trabalho contínuo e desafiador, que exige persistência e colaboração. A ciência oferece as ferramentas para compreender a complexidade do problema, mas a solução final reside na ação coordenada de múltiplos atores: pescadores, comunidades costeiras, indústria, governo e cada cidadão. A sobrevivência da toninha em Santa Catarina é um indicador da nossa própria capacidade de coexistir com a natureza e de proteger a riqueza de nosso patrimônio ambiental.

A gravidade da situação das toninhas em Santa Catarina em 2026 é um chamado inadiável para a ação e reflexão. É fundamental que a sociedade compreenda a importância de cada vida marinha e o papel que todos temos na sua preservação. Para continuar a acompanhar de perto esta e outras importantes notícias que impactam nosso estado e nossa biodiversidade, mantendo-se sempre informado sobre os desafios e as belezas de nossa região, <b>continue navegando pelo Palhoça Mil Grau</b>. Aqui você encontra análises aprofundadas, reportagens exclusivas e o compromisso com a informação que importa para Santa Catarina.

Fonte: https://g1.globo.com

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