Urupema, conhecida como a Capital Nacional do Frio, no alto da Serra de Santa Catarina, prepara-se para um inverno de 2026 que promete ser significativamente diferente dos cenários rigorosos e persistentes dos anos anteriores. Enquanto 2025 foi marcado por intensas ondas de frio, neve abundante e chuva congelada, a temporada atual aponta para uma dinâmica climática de maior variação térmica, com um frio menos extremo e mais intermitente. Essa mudança substancial é atribuída, principalmente, à formação e intensificação do fenômeno El Niño, que se manifestará de maneira mais proeminente no decorrer da estação, entre os meses de junho e agosto.
Urupema: a capital nacional do frio em um cenário climático distinto
A cidade de Urupema ostenta com orgulho o título de Capital Nacional do Frio, uma designação que reflete suas condições climáticas singulares. Localizada a 1.425 metros de altitude, a região é naturalmente propícia a baixas temperaturas, registrando uma média anual de 14°C e até 50 geadas por ano, além de episódios recorrentes de neve e o espetáculo da cascata que congela. Contudo, o inverno de 2026 desenha-se com características distintas, afastando-se do padrão de frio rigoroso e prolongado que a tornou famosa e que atrai milhares de turistas anualmente.
A gênese do frio extremo em Urupema
A notória frieza de Urupema não se deve apenas à sua elevada altitude, mas também a uma combinação de fatores geográficos que intensificam o frio. A área urbana da cidade, que abrange quase 90% de seu território, está situada em uma depressão cercada por morros. Durante as noites mais frias, o ar gélido, por ser mais denso, desce e se acumula no fundo do vale, criando uma espécie de 'poça de ar frio' que resulta em temperaturas significativamente mais baixas. Este fenômeno geomorfológico, somado à sua localização na Serra Catarinense, justifica o título oficial de Capital Nacional do Frio, concedido pelo Congresso Nacional em 2021. Em 2025, Urupema chegou a registrar incríveis -8,16°C, com sensação térmica de -31°C, conforme dados da Epagri/Ciram, evidenciando o potencial extremo do seu clima.
O fenômeno El Niño e suas implicações para o inverno catarinense
O El Niño é um fenômeno climático natural, complexo e cíclico, que se manifesta em intervalos irregulares, geralmente a cada dois a sete anos. Ele é caracterizado pelo aquecimento anômalo e persistente das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, com um desvio de temperatura de 0,5ºC ou mais em relação à média histórica. Esse aquecimento não se restringe apenas ao oceano, mas provoca uma alteração em larga escala na circulação atmosférica global, desorganizando os padrões normais de ventos, distribuição de calor e umidade, e impactando diretamente os regimes climáticos em diversas partes do mundo. No Brasil, e em Santa Catarina em particular, um El Niño em formação durante o inverno tipicamente acarreta temperaturas acima da média e maior umidade.
A projeção da Epagri/Ciram para 2026
A previsão para o inverno de 2026 em Urupema, divulgada pelo meteorologista Caio Guerra, da Epagri/Ciram – órgão de meteorologia de Santa Catarina –, aponta para um cenário influenciado diretamente pelo El Niño. Segundo Guerra, o fenômeno, ao se desenvolver no decorrer da estação, tende a elevar as temperaturas acima do normal, resultando em ondas de frio menos duradouras e um clima mais úmido. Isso significa que, embora ainda haja episódios de frio, eles não serão tão intensos nem persistentes como os que tradicionalmente marcam a região. "Aquele evento de frio que entra fica um, dois dias e logo perde força", pontuou Caio, descrevendo a natureza transitória das massas de ar polar. A alta umidade, especialmente em julho e agosto, atuará como um moderador térmico, dificultando a ocorrência daqueles picos de frio extremo característicos da Serra catarinense.
Os primeiros efeitos significativos do El Niño devem ser sentidos a partir de julho, estendendo-se até o final do inverno em agosto. Embora maio já tenha registrado entradas de frio e temperaturas negativas, com neve pontual em Urupema, esses eventos são vistos como parte da transição. Conforme os meses avançam, a configuração do El Niño se solidifica, e o padrão atmosférico muda, conferindo características distintas à estação em comparação com invernos sob a influência de águas mais frias no Pacífico ou em condições de neutralidade.
Impactos além da temperatura: umidade e eventos extremos
O El Niño não se limita a moderar o frio; ele também acarreta outras implicações climáticas importantes para Santa Catarina. A previsão de alta umidade, por exemplo, é um fator crucial. Ambientes mais úmidos têm maior capacidade de reter calor, evitando quedas bruscas de temperatura, o que significa menos chances de geadas intensas e formação de gelo em pontos turísticos como a Cascata que Congela, fenômenos que são ícones do inverno urupemense. Essa umidade elevada também pode, em outras regiões do estado, vir acompanhada de um aumento no volume de chuvas, elevando o risco de eventos extremos como inundações e deslizamentos de terra, motivo pelo qual Santa Catarina já decretou estado de alerta climático em face da previsão de um El Niño robusto e seus potenciais desdobramentos. Cidades vizinhas na Serra, como Urubici, São Joaquim e Bom Jardim da Serra, também deverão sentir os efeitos dessa alteração climática.
Desafios e adaptações: o turismo e a economia de Urupema frente ao novo inverno
A economia de Urupema, embora diversificada com a produção de maçã, batata, moranga, pecuária, orgânicos e truticultura, tem no turismo de inverno uma de suas principais alavancas. A expectativa de um inverno mais ameno representa um desafio e um convite à adaptação. A prefeitura da cidade, ao g1, informou que, apesar do aumento significativo na circulação de turistas durante a temporada de frio, a cidade ainda não possui dados oficiais e estatísticos detalhados sobre o impacto econômico desse fluxo. Reconhecendo essa lacuna, a administração municipal planeja iniciar, a partir de 2026, a coleta sistemática de informações para quantificar melhor os benefícios e planejar ações futuras. Um inverno com menos neve e geadas pode demandar estratégias de marketing diferenciadas para atrair visitantes, focando em outros atrativos da paisagem serrana.
No âmbito social, Urupema se destaca por não registrar a presença de pessoas em situação de rua, um feito que simplifica, mas não anula, a necessidade de preparação para o frio. A administração municipal, em colaboração com setores como assistência social, saúde e defesa civil, realiza ações contínuas para garantir o bem-estar da população, independentemente da intensidade do inverno. Essas medidas preventivas e de apoio são cruciais para assegurar que, mesmo com as mudanças climáticas trazidas pelo El Niño, a comunidade esteja protegida e preparada para qualquer eventualidade, reafirmando o compromisso com a qualidade de vida de seus moradores.
Este inverno de 2026 em Urupema será um período de observação e adaptação, com a natureza ditando um ritmo diferente para a Capital Nacional do Frio. As projeções meteorológicas indicam que a beleza da Serra catarinense continuará a encantar, mas sob uma perspectiva climática renovada. Para acompanhar de perto todas as novidades sobre o clima, o turismo e os acontecimentos que moldam a nossa região, continue navegando pelo Palhoça Mil Grau. Sua fonte mais completa de notícias e análises aprofundadas sobre Palhoça e Santa Catarina está sempre aqui!
Fonte: https://g1.globo.com