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Último criadouro de macacos-prego do Brasil é fechado por maus-tratos: ‘manejo era feito na base do terror’

G1

Em uma ação de grande relevância ambiental e de combate à crueldade animal, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) desativou o último criadouro de macacos-prego oficialmente registrado no Brasil. Localizado em Xanxerê, no Oeste de Santa Catarina, o estabelecimento operava há mais de uma década sob o manto de uma liminar judicial, mas as recentes constatações de maus-tratos severos levaram à sua interdição definitiva. A operação, concluída esta semana e divulgada na última sexta-feira (10), revelou um cenário desolador, com primatas desnutridos, estressados e privados das condições mínimas para o seu bem-estar e desenvolvimento natural.

Uma Década de Crueldade: Os Detalhes da Desativação

A história do criadouro de Xanxerê é marcada por uma permissão judicial que se estendeu de 2013 a 2024, período em que o local se dedicava à reprodução e comercialização de macacos-prego, saguis e outras espécies da fauna brasileira. Esta condição legal, paradoxalmente, abrigava práticas que tratavam os animais não como seres vivos complexos, mas como meras mercadorias para o lucro. A cassação da liminar em 2024 abriu caminho para que o Ibama investigasse a fundo as operações, revelando a extensão dos abusos e a gravidade das irregularidades.

As fiscalizações detalhadas no estabelecimento expuseram uma série de situações inaceitáveis de maus-tratos. Entre as principais constatações estavam as gaiolas diminutas, que impediam os macacos de realizar movimentos essenciais como a escalada, fundamental para sua fisiologia e comportamento natural. Além disso, os animais sofriam de desnutrição severa, estresse crônico decorrente do cativeiro inadequado e privação de luz solar, vital para a síntese de vitamina D e o equilíbrio do ciclo circadiano. A separação precoce de filhotes de suas mães era uma prática comum, rompendo laços sociais e de aprendizagem cruciais para o desenvolvimento desses primatas.

A intervenção não foi simples. O proprietário do criadouro impôs obstáculos significativos às equipes de fiscalização, o que exigiu a expedição de um mandado judicial para o ingresso na propriedade e a retirada dos 26 macacos-prego restantes. Vale ressaltar que, no ano anterior, já haviam sido resgatados 167 animais do local – 126 aves e 41 primatas –, que foram encaminhados para Centros de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) em Brasília, Lorena (SP) e Porto Alegre. A persistência do Ibama, apoiada pela justiça, foi crucial para garantir a segurança e o resgate de todos os indivíduos.

Macacos-Prego: Inteligência e Necessidades Negligenciadas

Os macacos-prego (gênero Sapajus) são primatas neotropicais conhecidos por sua inteligência notável, capacidade de usar ferramentas e complexa estrutura social. Na natureza, eles vivem em grupos hierárquicos, forrageiam, escalam árvores e interagem intensamente, desenvolvendo habilidades cognitivas e sociais. O ambiente encontrado no criadouro de Xanxerê era o oposto direto dessas necessidades biológicas e etológicas. Confinados em espaços exíguos, sem estímulos ambientais e nutricionais adequados, esses animais tinham suas capacidades inatas severamente comprometidas.

Uma das fiscais envolvidas na operação, cuja identidade não foi revelada, descreveu o manejo como sendo "feito na base do terror", utilizando jatos d’água de alta pressão. Essa abordagem brutal resultava em primatas com "alto grau de comportamento típico de estresse, de cativeiro inadequado", apresentando "sintomas de aversão a pessoas, demonstrando um medo exacerbado". O estresse crônico era tão elevado que impedia o desenvolvimento de comportamentos esperados para a espécie, como a formação de hierarquias de grupo, comprometendo irreversivelmente a sua capacidade de viver socialmente e de se integrar a bandos.

O Perigo da Domesticação e o Papel do Criadouro Ilegal

A criação de macacos-prego como animais de estimação é veementemente desencorajada pelos órgãos ambientais e pela comunidade científica. Esses animais silvestres não se adaptam a ambientes domésticos, e a tentativa de domesticá-los compromete gravemente seus comportamentos naturais, resultando frequentemente em manejo abusivo, maus-tratos e sérios riscos sanitários, tanto para os animais quanto para os humanos (risco de zoonoses). Além da ilegalidade, a demanda por primatas como pets alimenta um mercado predatório, contribuindo para o tráfico de animais silvestres e a exploração de espécies nativas.

Durante o período em que a liminar esteve ativa, entre 2013 e 2024, o criadouro declarou a venda de 240 primatas, sendo 86 macacos-prego e 154 saguis. Esses números, por si só, demonstram a escala da operação comercial e a forma como a vida selvagem era instrumentalizada. A desativação deste que era o último criadouro legalizado da espécie representa um marco na luta contra a exploração de animais silvestres no Brasil, enviando uma mensagem clara sobre a intolerância com práticas que desrespeitam a vida animal e as leis ambientais.

Rumo à Reabilitação: Uma Nova Vida para os Primatas Resgatados

Após o resgate, os macacos-prego foram encaminhados a uma instituição especializada em reabilitação de animais silvestres. Nesses centros, o foco é a recuperação física e psicológica dos primatas. Eles são alojados em espaços amplos, projetados para replicar seu habitat natural, com terra, vegetação e estruturas para escalada que incentivam o retorno a seus comportamentos instintivos. Além disso, recebem uma dieta nutritiva e balanceada, bem como acompanhamento veterinário contínuo e programas de enriquecimento ambiental para minimizar os traumas do cativeiro.

O objetivo primordial é restaurar as condições de saúde e bem-estar dos animais para que possam, eventualmente, readquirir os comportamentos esperados para a espécie. Conforme a fiscal, no novo lar, eles terão a oportunidade crucial de "compor bandos e viver socialmente", um aspecto fundamental para qualquer primata e que lhes foi negado por tanto tempo. A reabilitação é um processo longo e desafiador, mas essencial para oferecer a esses macacos uma segunda chance de vida digna, longe da exploração e do terror.

Colaboração Multiprofissional na Defesa da Fauna

A complexidade da operação de resgate e desativação demandou uma colaboração interinstitucional robusta. O Ibama contou com o apoio logístico fundamental da Polícia Rodoviária Federal (PRF), que garantiu o transporte seguro dos animais para as instituições de reabilitação. Adicionalmente, o Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA-SC), a Polícia Militar Ambiental e outras instituições parceiras desempenharam papéis cruciais na fiscalização, na segurança da área e no manejo dos animais. Essa atuação conjunta é um exemplo da força-tarefa necessária para combater crimes ambientais e proteger a rica biodiversidade brasileira.

A desativação deste criadouro em Xanxerê é mais do que uma notícia; é um lembrete contundente da responsabilidade humana para com a fauna silvestre e da importância da vigilância e fiscalização rigorosas. Para se manter informado sobre as últimas ações de proteção ambiental e outras notícias que impactam nossa região e o Brasil, continue acompanhando o Palhoça Mil Grau. Compartilhe este artigo e ajude a conscientizar mais pessoas sobre a importância da conservação da vida selvagem!

Fonte: https://g1.globo.com

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