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Relatório aponta agrotóxicos na água potável de mais de 150 municípios em Santa Catarina; conheça as substâncias detectadas

G1

Um alerta grave sobre a qualidade da água potável em Santa Catarina foi emitido por um relatório detalhado do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC). O estudo revelou a presença de resíduos de agrotóxicos em amostras de água de <b>155 municípios</b>, um número que acende um sinal de preocupação para a saúde pública e ambiental em grande parte do estado. Foram identificadas 42 diferentes substâncias, e o que é ainda mais alarmante, algumas delas já tiveram seu uso e comercialização proibidos no Brasil há anos, indicando falhas persistentes no controle e fiscalização.

A abrangência do problema é notável, com a região Sul do estado registrando a maior proporção de municípios afetados, com 76,1% apresentando registros de contaminação. Em seguida, aparecem a Grande Florianópolis (57,1%), o Oeste (53,4%), o Vale do Itajaí (44,4%), o Norte (42,3%) e a Serra catarinense (33,3%). Este mapeamento regional sublinha a dimensão do desafio, sugerindo que a questão dos agrotóxicos na água não é um fenômeno isolado, mas sim um problema disseminado, com implicações sérias para os mais diversos ecossistemas e comunidades rurais e urbanas.

O Paradoxo dos Níveis Autorizados e o Risco à Saúde

A coordenadora do Centro de Apoio Operacional do MPSC, Aline Restel Trennepohl, salientou que, embora os níveis de resíduos detectados em muitas amostras estejam dentro dos limites atualmente permitidos pela legislação brasileira, a presença constante dessas substâncias não anula os riscos potenciais à saúde humana. Esta é uma nuance crítica e frequentemente mal compreendida: um limite legal não significa necessariamente ausência de risco, especialmente quando se trata de exposição crônica e a complexidade das interações químicas. Os padrões atuais são frequentemente baseados em estudos de curto prazo ou na toxicidade de uma única substância, desconsiderando a exposição prolongada e o complexo cenário da combinação de múltiplos agentes químicos ao longo do tempo.

Um ponto de grande preocupação é a detecção de agrotóxicos cujo uso e venda já foram banidos no país. “Também chama a atenção o fato de algumas das substâncias encontradas já estarem proibidas no Brasil, algumas há vários anos. Isso mostra que, possivelmente, elas ainda estão entrando no território nacional ou que persistem no ambiente por sua longa degradação, um fenômeno conhecido como contaminação legada”, observou Trennepohl. Este achado sugere não apenas um problema de fiscalização na entrada de produtos ilícitos ou contrabandeados, mas também a persistência ambiental de compostos já proibidos, que podem levar décadas para se dissipar completamente do solo e da água, continuando a representar um perigo mesmo após seu banimento.

O 'Efeito Sinérgico': Uma Ameaça Subestimada

O professor Carlyle Torres Bezerra de Menezes, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), adicionou uma perspectiva vital ao debate ao destacar o 'efeito sinérgico'. Este conceito refere-se à interação entre diferentes substâncias químicas que, quando presentes simultaneamente, podem potencializar os impactos à saúde, mesmo que individualmente estejam em concentrações consideradas baixas ou seguras. Em outras palavras, a soma dos riscos pode ser muito maior do que a simples adição de cada risco individual, multiplicando os potenciais danos.

Este efeito é particularmente preocupante porque a regulamentação da água potável geralmente avalia os contaminantes de forma isolada. No entanto, em um ambiente complexo como a água, diversos agrotóxicos e seus metabólitos (produtos de sua degradação) podem coexistir. A interação entre herbicidas, inseticidas e fungicidas, por exemplo, pode gerar novos compostos ou amplificar a toxicidade existente, afetando sistemas biológicos de maneiras imprevisíveis, desde distúrbios hormonais e neurológicos até o aumento do risco de certas doenças crônicas e câncer a longo prazo. O relatório do MPSC, ao identificar cidades como Ituporanga com 23 tipos de agrotóxicos e Imbuia com 17, ilustra perfeitamente este cenário de coexposição e o potencial de efeitos sinérgicos, demandando uma abordagem mais integrada e holística na avaliação de riscos.

A Resposta dos Órgãos Oficiais e as Lacunas de Informação

Diante de tais achados, a posição dos órgãos responsáveis pela saúde e saneamento é fundamental para a tranquilidade da população. A Secretaria de Estado da Saúde (SES) informou à NSC TV que Santa Catarina segue rigorosamente as diretrizes nacionais para avaliação da água, reiterando que a detecção de agrotóxicos é permitida desde que em baixas quantidades. No entanto, esta postura, embora esteja em conformidade com a legislação, não aborda as preocupações levantadas pelo MPSC e pela academia sobre o efeito sinérgico e a presença de substâncias banidas. A conformidade com padrões mínimos, baseados em avaliações limitadas, não garante a ausência de risco, especialmente quando se trata de exposição contínua e complexa a coquetéis químicos.

Por sua vez, a Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan), que abastece mais de 190 municípios, afirmou que suas análises semestrais não indicaram contaminação por agrotóxicos na água distribuída pela empresa. Essa declaração contrasta com os resultados do MPSC, levantando questões sobre a metodologia de análise, a abrangência dos pontos de coleta ou as substâncias especificamente monitoradas pela Casan. É crucial que haja transparência e alinhamento entre as metodologias de monitoramento de diferentes órgãos para garantir uma avaliação completa, precisa e fidedigna da qualidade da água que chega às torneiras dos catarinenses, evitando discrepâncias que geram dúvidas e incertezas na população.

Um ponto de preocupação adicional reside na falta de confirmação por parte do Ministério da Saúde sobre o recebimento do relatório do MPSC, e a ausência de informações sobre as medidas que pretende adotar. Esta lacuna de comunicação e ação em nível federal pode atrasar a implementação de políticas públicas essenciais para proteger a saúde da população catarinense, evidenciando a necessidade premente de uma coordenação mais eficaz e proativa entre as esferas de governo – municipal, estadual e federal – para enfrentar um desafio de saúde pública de tamanha magnitude.

Agrotóxicos Banidos Encontrados e Suas Implicações Legais e de Saúde

A detecção de agrotóxicos que tiveram seu banimento decretado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é particularmente preocupante, pois indica um problema que vai além dos limites de segurança atuais. Essas substâncias foram retiradas do mercado devido a evidências de alta toxicidade, persistência ambiental, potencial carcinogênico ou riscos graves à saúde humana e ao meio ambiente.

Substâncias Identificadas e Municípios Afetados

1. <b>Benomil / Carbendazim:</b> Banidos através de diferentes RDCs da Anvisa, em 2002 e 2022. Estes fungicidas são conhecidos por sua toxicidade reprodutiva, podendo causar malformações congênitas e distúrbios hormonais, além de serem persistentes no ambiente. Foram encontrados em Arvoredo (2019), Braço do Trombudo (2019), Ituporanga (2023), José Boiteux (2019), Mafra (2023), Quilombo (2019), Rio Negrinho (2023) e Santa Rosa de Lima (2019).

2. <b>Carbofurano:</b> Um inseticida e nematicida de alta toxicidade, banido em 2017 (RDC Anvisa nº 185/2017) devido a riscos agudos à saúde humana (afetando o sistema nervoso) e à fauna, especialmente aves e mamíferos. Detectado em Balneário Camboriú (2019).

3. <b>Haloxifope metílico:</b> Um herbicida banido desde 2002 (RDC Anvisa nº 347/2002). Sua detecção em Rancho Queimado (2022) levanta questões sobre resíduos antigos ou uso ilegal, dada a sua proibição de longa data, indicando uma possível contaminação legada ou persistência extraordinária.

4. <b>Metolacloro:</b> Este herbicida foi banido em 2019 (Resolução-RE Anvisa nº 1.967/2019) devido a preocupações com sua potencial carcinogenicidade e toxicidade reprodutiva, além de ser um contaminante comum de águas subterrâneas. Sua presença foi identificada em diversos municípios e em diferentes anos, o que indica um problema generalizado: Camboriú (2019), Canelinha (2022), Ilhota (2018), Imbuia (2019, 2022, 2023), Itaiópolis (2022), Ituporanga (2018, 2022, 2023), Jaguaruna (2018), Mafra (2018), Rio do Sul / Agronômica / Aurora / Laurentino / Lontras (2018), Rio Negrinho (2018), São João do Sul (2019, 2022, 2023), Schroeder (2018) e União do Oeste (2019).

5. <b>Molinato:</b> Herbicida banido em 2019 (Resolução-RE Anvisa nº 1.967/2019), com preocupações similares ao Metolacloro, incluindo potencial toxicidade e persistência. Encontrado em Imbuia (2023) e São Martinho (2019).

A recorrência dessas substâncias, algumas banidas há mais de duas décadas, ressalta a urgência de uma fiscalização mais robusta nas cadeias de distribuição e uso de agrotóxicos, além de investigações aprofundadas sobre a persistência e origem desses contaminantes no sistema hídrico de Santa Catarina, seja por uso ilegal, descarte incorreto ou movimentação geológica de resíduos antigos.

Caminhos para a Solução e a Importância da Conscientização

O relatório do MPSC serve como um chamado urgente à ação para autoridades, produtores rurais e a sociedade civil em geral. É imperativo intensificar a fiscalização, não apenas sobre o uso, mas também sobre a entrada e comercialização de agrotóxicos ilegais ou banidos, reprimindo efetivamente o contrabando e o mercado paralelo. Investimentos em tecnologias de tratamento de água mais avançadas, capazes de remover uma ampla gama de contaminantes químicos, tornam-se essenciais para garantir que a água distribuída à população seja de fato segura. Além disso, é fundamental promover a transição para práticas agrícolas mais sustentáveis e agroecológicas, que reduzam a dependência de agrotóxicos e minimizem seu escoamento para os corpos d'água, protegendo as fontes desde a origem.

A transparência na divulgação dos dados de monitoramento da qualidade da água e a educação ambiental são pilares para que a população possa compreender os riscos envolvidos, exigir ações efetivas e participar ativamente na construção de soluções. A saúde pública está intrinsecamente ligada à saúde ambiental, e a contaminação da água potável por agrotóxicos é um lembrete contundente e inegável dessa conexão, exigindo uma abordagem integrada e de longo prazo para a proteção de nossos recursos hídricos e da vida.

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Fonte: https://g1.globo.com

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